Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de futuro

Dos riscos da terapia

Foi na terceira ou quarta seção que ele me disse o que faria comigo: seguraria o espelho para que eu pudesse me enxergar melhor. O problema é que era ele quem escolhia o ângulo e aquilo que gostaria de ver refletido. Eu apenas iria observar. Quieta, de preferência. E por anos foi isso que meu terapeuta fez. Segurou o espelho. Vasculhou os cantos que gostaria que eu enxergasse. Apontou para o passado, apontou para o presente. Sorria bastante, o que me incomodava. Ficava sério quando eu esbravejava. Empurrava a caixinha de lenços quando eu chorava.

Mas terapeuta é bicho estranho, e se mete às vezes por caminhos obscuros. De tanto segurar o espelho – o que deve às vezes cansar o braço – ele resolve, como por descuido, apontar para o futuro. Não, ele se recusa a dar conselhos ou dizer o que pensa, mas assim, quase sem querer, começ a a prever o que vai acontecer com você daqui uns anos. Ele nunca vai dizer o que vai acontecer amanhã, nem vai afirmar se você deve ou não terminar o namoro, sair ou não do emprego. Essas escolhas são suas. Mas às vezes, sem quase mais, ele vê o futuro, profetiza, adivinha, ou qualquer ação parecida, a depender do gosto ou da religião.

Foi assim na última vez que falei com meu terapeuta. Depois de uma longa conversa em que ele me parabenizava por meu imenso progresso em diversas áreas da minha vida, ele termina dizendo que acreditava que eu continuaria assim, madura e confiante enquanto ainda fosse jovem. Quando a juventude passasse, outras questões viriam, mas, segundo ele, não era o momento de se preocupar com isso. O tempo mesmo se encarregaria quando chegasse a hora.

Mas que raios ele quis dizer com “enquanto eu ainda fosse jovem”? A juventude passa? Como assim, passa? Que outras questões são essas? O que vai acontecer comigo quando essa fase, longa, segundo ele, acabar? Ei! Volta aqui, me diz, me explica!

E ele já se foi. Até a próxima seção. E as palavras a elogiarem meu progresso e minha maturidade ficaram esquecidas. Ele apontou seu seu espelho de condão para o futuro por um segundo, e no seguinte, se foi. As coisas mudarão daqui uns anos. Palavras de cartomante sobre o futuro. Eu serei feliz? Certamente, minha filha. Eu vou estar casada? Sim, vejo um homem que te ama nas cartas. Ele é o meu marido? Sim, é seu marido. Mas ele é o mesmo ou é outro? Minha filha, isso as cartas não dizem, dizem apenas que você estará com o homem que ama. Eu terei filhos? Vejo muitas crianças na sua vida.  Mas são meus filhos ou sobrinhos? Há uma sombra sobre essa questão, não posso te dizer, mas vejo que você ama profundamente essas crianças.

Saio da terapia como quem sai da cartomante. Penso no futuro e suspiro desesperançada. Meu progresso tem um prazo de validade. Depois, segundo o terapeuta, terei começar tudo de novo. O que aprendi hoje não vai valer para a vida toda. As questões da juventude certamente morrerão junto com ela. E hoje, que aprendi a duras penas a ser uma mulher de vinte e tantos anos, terei que aprender a ser, mais adiante, uma mulher de quarenta, depois, uma mulher de cinquenta, e assim por diante.

Custava o terapeuta segurar o espelho apontando só para o passado? Custava se focar nas questões presentes e elogiar meu progresso incrível dos últimos tempos? Custava se controlar e não me deixar saber dos seus poderes de adivinho?Logo eu, que morro de medo do que Bíblia proíbe, que me lembro a cada minuto de Saul perdendo seu reino por uma reles perguntinha a um adivinho qualquer. Eu não quero saber do futuro. É o futuro que nos faz perder reinos, é o futuro que nos faz perder o sono, é o futuro que nos faz esquecer da longa lista de elogios e se por a morrer de medo do que virá amanhã. Amanhã terei trinta, depois, logo depois, quarenta. Se a juventude passa, a terapia há também de passar. E assim ficamos combinados.

 

 

Fernando Vallejo, A virgem dos sicários

Fernando Vallejo, A virgem dos sicários. São Paulo, Companhia das Letras, 2006. 111 páginas.

Nada mais atual que este livro de Fernando Vallejo. Se de noite eu lia algumas páginas do livro, em que o narrador vai contando os mortos na cidade de Medellin, pela manhã, ao abrir os jornais, eu lia os mortos da noite anterior na cidade de São Paulo. A Medellin contada pelo narrador me lembrava a cada instante o horror que se tem vivido nos últimos dias na cidade que já foi louvada pela queda brusca dos homicídios em poucos anos. Mas não estou aqui para falar de São Paulo. Estou para falar de Medellín, não a Medellín atual, que não conheço, mas essa que Fernando, o narrador do livro de Fernando Vallejo, nos conta.

Fernando é um gramático que voltou para a cidade de Medellín depois de muitos anos morando no exterior. A cidade que deixou na infância se apresenta agora como um lugar em que o ódio é sentido até mesmo na chuva que cai raivosa e faz transbordar o lixo do esgoto. Em meio a esse cenário, Fernando, já velho, conhece Alexis, um adolescente que trabalha como sicário, o nome dado para os matadores de aluguel. É Fernando, no entanto, que passa a nos contar os assassinatos cometidos por Alexis. Enquanto os dois caminham a via sacra em que Fernando busca conhecer as mais de cem igrejas católicas de Medellín, muitos vão sendo os mortos no meio do caminho, todos pelas mãos alvas e inocentes de Alexis, o menino anjo de Fernando.

As mortes causadas por Alexis são banais, como todas as mortes em Medellín. Um taxista que não abaixa o volume do rádio, um mendigo folgado, um menininho que desafia o guarda local, uma garçonete que se recusa a servir um café. Todos morrem pelas balas do revólver de Alexis enquanto eles caminham em direção às igrejas. E não há nada a fazer. Ninguém reclama seus mortos, nenhuma polícia aparece para investigá-los. E se segue, então, a caminho da igreja.

É Fernando, no entanto, quem conta os mortos e tenta justificá-los. Alexis não precisa justificar nada, é sua profissão, matar é a única coisa que sabe fazer, não é preciso pensar sobre isso. Mas as justificativas para tanta morte ou tão pouca vida não valem a pena. Morreu porque merecia. Melhor morrer do que viver reclamando. Pelo menos agora o primeiro inferno passou, agora só lhe resta o segundo. E assim Fernando vai nos dizendo que a vida, essa vida humana, vale mesmo muito pouco, e o melhor que se faz a um ser humano é lhe oferecer a morte.

Esse cenário de violência nos é apresentado juntamente com uma miséria completa que ronda Medellín. As comunas, algo como as favelas brasileiras, rodeiam a cidade e a vigiam com seus olhos de morte. Ali a vida vale nada, a morte é o que se espera, a vingança é o que movimenta o cotidiano, e os mortos vão sendo jogados em terrenos baldios em que urubus se encarregam de levar a alma para outro lugar.

Fernando, no entanto, é quem nos conta a história e por meio dele sabemos que poucos sobrevivem e chegam à velhice. Ele é um deles, velho que caminha sobre os mortos de sua cidade. A morte não lhe enlaça e ele vai também contando seus próprios mortos. Morre Alexis, morre Wílmar, morre outro. Sua sina é viver e pensar e tentar justificar aquilo que não ocupa a cabeça dos jovens de Medellín, que trocam a vida por um par de tênis, por um café mal servido.

A narrativa ácida de Fernando nos atinge em cheio. Ao mesmo tempo em que a ironia fina com que justifica as mortes nos prende na narrativa, as mortes contadas aos quilos em cada página nos fazem fechar o livro. O livro é um sufoco, uma falta de ar, uma raiva que contagia, ao mesmo tempo em que clareia um tanto da miséria cotidiana do dia a dia. Ainda bem que o livro é curto e nos livra rapidamente de olhar de frente para a culatra estampada em sua capa.

Resta agora voltar ao noticiário e pensar na nossa realidade cotidiana, na São Paulo contando seus mortos, na culatra que nos assombra e afirma que a vida, também por aqui, vale pouco, muito pouco.

Quem tem medo dos tempos verbais?

A etapa mais difícil de aprendizagem de uma nova língua são os tempos verbais. No básico um aprendemos, geralmente, os pronomes, um pouco de vocabulário, os números, aprendemos a nomear as coisas. No básico dois  falamos tudo no presente. Eu sou. Você é. Eles são. Tudo é certeza e, mesmo quando duvidamos da nossa capacidade de nos expressar na nova língua, ainda assim seguimos afirmando tudo o que aparece à frente: a casa é amarela, eu sou feliz, o livro está sobre a mesa, eu amo você.

No nível intermediário as coisas começam a complicar e o mundo fica mais incerto. Quando se passa a olhar para o passado as certezas se vão. Eu fui. Eu era. Eu teria sido. Eu fui e ainda sou. Eu fui mas não sou mais. É quando começamos a pensar naqueles que amamos e o coração bate num soluço. Eu amei. E eles, me amaram? Me amaram e ainda me amam? Ou não amam mais? Olhando para o passado, nos enchemos de dúvidas. Há o passado perfeito, o mais que perfeito, o imperfeito. O que já terminou, o que perdura, aquele pelo qual não há mais nada a se fazer. E ficamos ali, diante da nova língua, angustiados, o peito repleto de dores passadas, gritando para que sejam expressas no presente, aquele presente convicto de nível básico, presente do indicativo. Eu te odeio. Eu te amo. Eu estou feliz. Eu quero ir embora. Eu preciso respirar.  Eu gosto de chocolate. Você gosta de mim. Eu tenho saudades. Eu acredito em Deus.

No presente do indicativo tudo volta à normalidade. Nos lembramos de quem somos, do que gostamos, nomeamos as pessoas que estão por perto. É no nível básico que encontramos essa segurança preciosa do cotidiano que nos ajuda a continuar vivendo o que vivemos até aqui.

Avançar é preciso. Se o nível intermediário nos lança nessa areia movediça do passado, arrancando aos poucos nossas lembranças e dores e culpas esquecidas, é no nível avançado, no entanto, que somos jogados no precipício: é hora de aprender sobre o futuro. Num primeiro momento, o futuro do indicativo, ingênuo como no nível básico, carregado de ares de certeza: eu serei feliz, você será rico, nós venceremos, a casa será construída em dez meses, sua família terá saúde. Nesse momento chegamos até a esquecer as agruras do intermediário, deixando para trás as tristezas do passado.

Mas a língua, essa língua que ansiamos aprender, não dá tregas ao coração. Depois da aparente certeza do futuro do indicativo, abre-se à nossa frente um abismo de novas incertezas, nomeado das mais diversas formas: futuro do pretérito, futuro do presente, futuro composto, futuro do subjuntivo. Frente a tamanha dificuldade, nossa crença em qualquer futuro se esvai. Mesmo esfraquecidos, no entanto, nos esforçamos para continuar o aprendizado daquela língua, temerosos do que esse futuro pode nos reservar.

O maior de todos os problemas se dá quando percebemos que o futuro está irremediavelmente ligado ao passado. Futuro do pretérito. Se eu tivesse prestado mais atenção, se tivesse sido mais presente, se tivesse trabalhado menos, se tivesse sido menos egoista, se tivesse me importado menos com meus sonhos e sonhado junto, ah, se tivesse feito tudo diferente, certamente eu seria mais feliz.  Seria, num futuro que não existe, poderia ter sido, mas não sou, não serei. Não há mais certezas, não estamos no reino do indicativo.

E o coração de novo soluça, se aperta no peito, odiamos aquela língua que nos lembra fracos e impotentes frente ao passado e ao futuro. Desejamos ardemente o simples do nível básico, o presente cheio de certezas, mesmo que seja para ser triste, mesmo que seja para ser sozinho. Mesmo que seja para viver caindo num precipício, mesmo que seja para fazer do abismo o nosso cotidiano. O que importa é a certeza do presente. Talvez por isso gostemos tanto do nível básico e nos acovardemos frente ao avançar do estudo de novas línguas. Os tempos verbais nos assombram, de forma completamente definitiva. De forma indicativa.