Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de falatório

Antônio de Ferraz

Para Natália Corazza

Prefiro corredores. Mesmo que ande desajeitada, mesmo que olhe para o chão. Melhor ter um espaço por onde caminhar, um caminho por onde fugir que ficar parada, perdida, sendo ninguém no meio de uma multidão. O problema é que a multidão sorri, a multidão conversa, troca telefones, inventa ideias. A multidão se conhece, e eu sou ninguém. Continuo sendo ninguém.

Contorno a multidão que se aglomera no saguão. Antes de chegar a novos corredores leio cartazes, anúncios. Vende-se, aluga-se, procura-se, compra-se, inaugura-se. Vende-se de novo, compra-se. Procura-se. Procuro. Procuro sempre. Procuro um corredor. Procuro um vendedor. Procuro um banheiro, um bebedouro. E a multidão ainda falante, ainda sorridente.

Como todos se conhecem? Como é possível conhecer tanta gente? Onde eu estava quando todas estas pessoas passaram a se conhecer e a se telefonar e a se procurar? Como elas sabem tanto de si e eu não sei nada?

Um graçom passa e oferece bebida. Pergunto a ele se sabe onde está sendo o lançamento do livro do Antônio de Ferraz. Ele pede desculpas, diz que não sabe informar mas aponta uma senhora que talvez possa me ajudar. Vou até ela, senhorinha já, pergunto pelo autor, ela responde que não o conhece, como ele se chama mesmo? Antônio de Ferraz. Sabe que meu filho também se chama Antônio? Eu queria muito que ele fosse escritor, assim como meu pai. Seria tão fácil, a editora ali, com tudo prontinho para publicar. No começo era mais dificil, mas aos poucos a editora foi crescendo, agora tudo é mais fácil. Mas ele cismou de ser pintor. Pintor? É, pintor. Agora está no estrangeiro. Meu neto nasceu dia desses, mas ainda não o conheci, acredita? Acredito.

A conversa foi longe. Me esqueci dos corredores, dos anúncios, dos livros, dos bebedouros, da multidão. Me esqueci do meu pânico de congressos e lançamentos e feiras. Não me importava mais como as pessoas se conheciam. As pessoas não me importavam mais. Nem me importava mais Antônio de Ferraz.

Quando me despedi da senhorinha foi que percebi que ela estava sentada na última mesa do saguão, no início de um corredor. Como eu, ela também era ninguém.

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