Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de emoção

Alaranjado

Apesar de mal cheiroso, o cenário era encantador: em uma mesa enorme se viam peixes grandes, pequenos, esguios, gorduchos. Uns portavam bigodes estranhos, havia os curiosos, de olhos arregalados, uns eram coloridos, outros definitivamente não se importavam com a beleza exterior. Mas estavam todos ali, à espera de alguém que os escolhesse, que os desejasse, para que então pudessem sair da vitrina e se dirigir para as mãos do peixeiro – o grande mestre dos peixes do supermercado.

Influenciada que sou pelos hábitos de consumo, quis escolher um salmão, afinal, dizem que é um peixe bom, faz bem para o colesterol e para o coração, e mais afinal ainda, estava em promoção. A escolha não foi simples: eu procurava um peixe com aspectos alaranjados, talvez as escamas, ou os olhos. Mas o danado se esconde por traz de uma pele grosa, cinza, impenetrável. Depois de algumas dificuldades, lá se foi o salmão eleito para as mãos do peixeiro, que se pôs a realizar um doce trabalho.

Com uma escova grosa – de aço, certamente – ele alisava o corpo do peixe, no sentido contrário das escamas, e ia liberando meu salmão de um pouco daquela pele que o escondia. Nesse momento o peixe já era outro, mais brilhante, mais suave. Depois de limpar a mesa de trabalhos com uma mangueira de esguicho, o mestre dos peixes afiou o facão, seu olhar se alternando, com certa doçura, entre o brilho da lâmina e a crista do salmão. O corte foi certeiro: com apenas um movimento o salmão se viu livre da cabeleira que lhe pesava a nuca.

De todos, o momento seguinte foi o mais sublime: lâmina mais uma fez afiada, o peixeiro-coiffeur deitou a faca na direção do peixe, fez uma incisão suave na sua barriga, e com um movimento paralelo à mesa, foi tirando, aos poucos, a pele do salmão. E foi ali que meu coração tremeu: seu interior era inteirinho de um laranja forte, sensual, amolengado, sem sangue, sem nada. Quanto mais o peixeiro ia levando a faca da direita para a esquerda, mais o ambiente ia sendo inundado por aquela cor que eu só via nos desenhos da minha infância. Então é verdade, meu coração dizia, é verdade que o salmão é rei e senhor de todo o laranja que existe nesse mundo! Certamente eu não piscava, tamanha a falta de ar que senti diante do espetáculo. Só percebi meu espanto quando o peixeiro se voltou pra mim, já impaciente, perguntando se eu queria em postas ou em filé.

Eu queria dizer a ele que não importava, que era o peixe quem decidia, que era ele quem me dominava, que aquilo era todo o espetáculo da natureza, e que ele, o peixeiro, era, sem dúvida alguma, o profeta que trazia ao mundo a mensagem que eu queria. Disse a ele tanto faz, do jeito que você achar melhor.

Devo de ter esquecido minhas postas de salmão em alguma gôndola do supermercado. Cheguei em casa ainda estupefata, sem sacola nas mãos e com todo o laranja do mundo em meu coração.