Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de distância

Desnecessidade

Eu não preciso que você goste de mim. Já precisei, hoje não preciso mais. Já fiz de tudo para conseguir um sorriso seu, perdia noites interpretando seus gestos, buscando compreender se você estava zangado comigo, ou se aquilo não passava da minha imaginação. Se você andava triste, eu achava que a culpa era minha. Se estava feliz, era certo que eu não fazia parte da sua felicidade. Você era o centro da minha vida, e eu andava às voltas, próxima ou distante, mendigando carinho e atenção.

Às vezes você partia para tão longe que eu te perdia de vista. Às vezes, estando do meu lado, fazia questão de demonstrar que eu não era o centro de nada. Eu te amava e você deixava claro que não se importava. Você me acudia, mas só quando era completamente necessário. E nessas horas eu acreditava que você me amava. E nessas horas eu te amava, mais.

Hoje não sei bem por onde você anda. Mas te percebo numa cara fechada, num bom dia não correspondido. Numa recusa a ir comigo ao cinema. Te percebo no falatório cotidiano que diz e diz e nem se preocupa em perguntar como estou me sentindo. Te percebo no silêncio do telefone, que por dias e dias não toca, não chama.

Te percebo, mas não me importo mais. Não preciso mais que você goste de mim. Nem mesmo penso que não preciso, mas seria bom se você gostasse. Não me importo mais. Eu continuo podendo amar a quem eu quiser. E amo. Amo muito. Amo a muitos. E minha sina continua sendo amar, mesmo que os outros não me amem de volta. Mas não sofro mais. Não preciso mais. Hoje aprendi que o amor é bênção para quem o tem, para quem o cultiva. E que sempre haverá um sorriso inesperado, um convite no meio da tarde, um abraço que acolhe naquele lugar que a gente pouco espera.

Hoje não preciso mais que você goste de mim, porque aprendi a perceber que não amo sozinha e que sempre há uma mão estendida, que de tanto olhar para você eu não percebia. Hoje aprendi que há sempre alguém à espera, que deseja me transformar no seu objeto de amor. E são essas pessoas que hoje recebem os meus sorrisos e desejos de bom dia. E então, eu não preciso mais que você goste de mim.

A distância de duas xícaras de café

Fazia meses que eu não o encontrava. Era preciso dizer algumas coisas, ajeitar os sentimentos, falar de nós. Nós? Eu nem sabia mais se era possível falar em nós. Eu sentia saudades, eu morria de saudades, meu corpo doía a cada dia a sua ausência, a sua distância. E agora ele ali, à minha frente, duas xícaras de café e uma distância de milhares de quilômetros.

Era preciso falar de nós. Comecei, então, a falar de mim.

Comecei um curso semana passada, de escrita criativa, a professora é uma escritora, meio famosa, meio estranha. Também fui no cinema e vi um filme que me lembrou você. É. O filme era com aquele ator que você gosta, ele estava deslumbrante, misterioso, a trama era fantástica, deixava a gente submerso do começo ao fim. O filme é baseado num livro, acho que você conhece esse livro, me lembro uma vez você falando que queria ler esse escritor. O nome do escritor? Puxa, era um alemão, acho que era alemão. Você não se lembra? Não tem problema, eu vou procurar na internet e te mando por e-mail. Falando nisso, você viu o último e-mail que te mandei? Não viu? Será que foi pro spam? Estranho… bom, não era nada, era pra te falar sobre uma peça que estreiou dia desses, pensei que a gente podia tentar ir juntos.

Ele afastou as xícaras e pegou minha mão. Os milhares de quilômetros diminuiram para centenas. Nesse instante eu parei de desfiar a ladainha vazia sobre minha vida vazia. Ele procurou os meus olhos e eu tive a certeza que ele falaria mais uma vez que era por isso, que era exatamente por isso que não dava certo, que a gente não dava certo. Mas não disse. Dessa vez ele não disse. Em silêncio ele aproximou o dorso da minha mão de seus lábios, beijando-o com toda a delicadeza e afeto que lhe eram tão comuns. Afastou novamente minha mão, olhou-a e disse que minha mão era uma das coisas lindas de todas as coisas lindas que eu trazia na vida.

Enquanto ele devolvia minha mão à mesa se construía em mim a certeza dolorosa que era por isso que eu amava aquele homem, por ele saber o momento exato de segurar a minha mão e me fazer calar diante do falatório alucinante que nos afasta de qualquer pessoa que esteja sentada à nossa frente.

Eu seguia seus movimentos vagarosos, suas mãos agora na xícara de café, a xícara entre seus lábios, suas mãos pousando a xícara de volta à mesa, como há pouco fizera com minhas mãos, o guardanapo sobre seus lábios, os lábios que há pouco tocaram minha pele. E então, ele disse, o que você mais gostou nesse filme?

Foi quando finalmente entramos nessa esfera em que o nós existe, em que não havia mais nenhuma distância nos separando, em que as xícaras nos eram intimidade e segurança. Esse lugar em que eu me permitia também tocar a sua mão, olhar seus olhos, dizer que tenho saudades etc.