Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de amizade

Valter Hugo Mãe: A máquina de fazer espanhóis

_maquina_espanhoisValter Hugo Mãe, A máquina de fazer espanhóis.  São Paulo, Cosac Naify, 2011. 254 páginas.

Não. O livro de Valter Hugo Mãe não fala de espanhóis. Ele fala dos portugueses, e os espanhóis, quando aparecem, é apenas para falar, apontar, refletir os portugueses. Mas também não se engane o leitor. Não é dos portugueses que se trata o livro, mesmo que seja o Fernando Pessoa, ou melhor, o Esteves sem metafísica do poema do Pessoa quem dê o ritmo e o tom do livro. O livro nem é mesmo sobre o Esteves. O livro fala sobre a velhice e, antes ainda disso, fala sobre a amizade na velhice.

Quem narra o livro é antônio jorge da silva, assim mesmo, um antônio em minúsculas, ou melhor ainda, um silva em minúscula, como é a vida de todos os silva. Depois da morte da esposa, silva é internado num lar para idosos e é lá que se passa toda a trama do livro. Num primeiro momento, silva se fecha, se ressente, sente a morte e a ausência da esposa, volta-se contra a filha, contra o diretor, contra o enfermeiro.

Aos poucos, silva conhece um companheiro do lar, depois outro, depois outro. Em todas as histórias e conversas, é a morte quem ronda, o abandono, o desejo de que a vida se encerre como se encerra o dia. Nada a fazer, nada a contar, nada mais a desejar. A vida no lar se mistura com as memórias e saudades do passado com a impotência onipresente do presente. E é nessa mistura, nesse entremeio que silva nos conta suas lembranças, as de agora e as de antes. Histórias de ontem, histórias de muito antigamente.

Se no momento em que chegou no lar silva não queria falar com nenhum de seus semelhantes, no decorrer da trama é no quarto de seus companheiros, nas conversas noturnas, na cama compartilhada de madrugada que silva encontra um sentido para a velhice. Numa das passagens mais lindas e surpreendentes que já li nos últimos anos, silva confessa ao enfermeiro: “precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida, américo, que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro. eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade. hoje percebo que tenho pena da minha laura por não ter sido ela a sobreviver-me e a encontrar nas suas dores caminhos quase insondáveis para novas realidades, para os outros. os outros, américo, justificam suficientemente a vida, e eu nunca o diria. esgotei sempre tudo na laura e nos miúdos. esgotei tudo demasiado perto de mim, e poderia ter ido mais longe. e eu não morro hoje, rapaz, não morro sem acompanhar o senhor pereira ao cemitério.”

Fecha-se o livro com um desejo grave de encontrar os outros. Esse outro que o silva fala, esse outro que justifica a vida, esse outro que não está suficientemente perto, esse outro que por vezes não percebemos ou não queremos perceber, ocupados que estamos da laura e dos miúdos.

O livro de Mãe foi uma homenagem dele a seu pai, que não viveu a terceira idade. O seu legado se parece, no entanto, com uma oração de quem não acredita na vida após a morte, mas acredita no valor do outro, em qualquer idade que seja.

Sinto saudades de você

Sinto saudades dos apelidos que você inventava para todos os nossos amigos, principalmente, sinto saudades do apelido que você inventou para mim.

Sinto saudades do seu sorriso em boca larga dizendo que não acreditava na novidade que eu acabava de trazer da rua. Ainda hoje consigo lembrar da melodia da sua frase, que era e foi sempre só sua. Ainda te ouço dizer “não acredito!” do jeito mais lindo que se pode fazer.

Sinto saudades de quando lágrimas gordas caíam de seus olhos e eu me sentia numa intimidade que jamais imaginara, ali, num cinema qualquer na Avenida Paulista. Cada lágrima me fazia acreditar que eu podia ser sua amiga.

Sinto saudades de quando eu imitava o seu jeito de falar porque assim eu me sentia mais próxima de você. Sinto saudades de quando tudo o que eu desejava era estar sempre e um pouco mais mais próxima de você.

Sinto saudades de me sentir a Marilyn Monroe, simplesmente por estar ao seu lado, simplesmente porque você me dizia isso a todo instante. Sinto saudades quando eu, simples, era capaz de acreditar nisso.

Sinto saudades da forma inocente de quando desejávamos mal ao nosso chefe.

Sinto saudades de ouvir você contar de namorados como se contam os dedos da mão.

Sinto saudades de você chegando descabelada em casa, como se o mundo tivesse te recusado a vida naquele dia, e você tivesse lutado bravamente para sobreviver a ele e merecesse, antes de mais nada e acima de tudo, o nosso elogio.

Sinto saudades das cidades que planejamos ir juntos e nunca fomos.

Sinto saudades do seu olhar atento e sério quando eu brotava em choro e não continha minha tristeza. Sinto saudades da paciência com que você me tratava mesmo quando eu te atacava, desconfiada da sua lealdade.

Sinto saudades da alegria que eu sentia quando você vinha de outra cidade só para me ver. Sinto saudades do cheiro da rodoviária, que nunca mais se repetiu.

Sinto saudades de tanto, e o que é possível é fazer com que você saiba que sinto saudades. Sinto saudades de você.

Poemas num café

O céu chorava suas mágoas raivosamente quando Marcela entrou no café. Eu já a esperava, numa mesa mais ao fundo. Não sabia ao certo o que Marcela queria, mas senti a conversa não seria alegre, como é normalmente. No dia anterior ela me telefonara, disse rapidamente que precisava conversar, eu perguntei o que era, ela me convidou para um café, lá eu te conto. Desligou.

Apesar da chuva, seus cabelos estavam intactos, arrumados num coque alto, com um pequeno adereço de arremate. Vinha numa capa de chuva, botas e sombrinha. Trazia sua pequena bolsa, como de costume, e um livro na mão. Me viu ao fundo, deixou a sombrinha e a capa do chapeleiro, passou rapidamente uma das mãos no cabelo, verificando a exatidão do penteado, olhou para mim e sorriu, vindo na minha direção.

Trouxe esse livro pra você, foi o que ela me disse ao me beijar as bochechas. Me mostrou a capa, delicada como era ela mesma, dizia que trazia poemas que eu iria gostar. Abriu o livro, leu um, leu outro. Eu olhava para Marcela e pressentia que aqueles poemas eram pura metáfora, era o jeito de ela não dizer o que tinha para dizer. Eu esperava. Sorria a cada poema. No próximo ela vai parar, certamente ela vai parar. Eu não queria interromper Marcela. O que ela tinha para me dizer era algo grave e merecia aquela introdução poética.

No meio do quarto poema, Marcela parou no meio. Foi a primeira vez que olhou diramente para mim, olhou nos meus olhos. Eu ainda esperava. Ela baixou os olhos, olhou o livro, passou seus dedos delicados por cima daquele quarto poema. Eu esperava.

E como vão as aulas do doutorado? Ela me perguntou. Vão bem. E os livros, está gostando de lê-los? Não são muito pesados? Não, não são. Eu gosto deles. Gosto mesmo. E a sua orientadora, já conseguiu conversar com ela? Agendamos uma reunião para semana que vem, espero que dê certo. Vai dar, você vai ver, vai dar.

Marcela olhou pela janela para fora do café. Ainda chovia aquela chuva magoada. Achei que ela ia comentar a chuva mas não disse nada. E o Gustavo, como vai? Eu perguntei. Ele foi ontem fazer uma nova entrevista de emprego. Tem outra poesia que eu gosto, posso ler? Eu acenei com a cabeça e ela voltou à leitura dos poemas.

Ela não disse nada sobre o fracasso das entrevistas anteriores, nem do medo que sentia de precisar voltar a morar na casa dos pais. Marcela apenas lia poemas e assim dividia comigo toda a insegurança que sentia na vida. Ela pediu um chá de frutas vermelhas, eu pedi um café sem açúcar. Dividimos depois uma torta de limão, que ela disse, sorrindo, não ser tão boa quanto a que eu costumo fazer. Rimos as duas e aos cruzarmos nossos olhares entendi que uma metáfora vale muito mais cumplicidade que mil palavras ditas sem intimidade.

Marcela ajeitou uma mecha de cabelo que lhe caiu sobre a testa, me pediu um grampo emprestado, arrumou o coque, empurrou o livro para perto de mim e me disse que era um presente. Preciso ir, o Gustavo está me esperando. Pegou sua sombrinha e sua capa no chapeleiro, acenou para mim da porta do café e se foi, com toda a leveza que possui para sofrer e ler poemas nos momentos mais tristes de sua vida.

Dos perigos de um bife à parmegiana

Aninha me ligou aos prantos, soluçava tanto que eu não era capaz de entender meia frase. Perguntei onde ela estava e entendi num grunhido que ela tinha se mudado para a casa da mãe. Fui visitar Aninha.

Quando entrei na casa encontrei Aninha desfigurada, descabelada, desconsolada. Aos poucos foi me contando que o marido tinha ido ontem almoçar em casa, e entre a salada e o bife à parmegiana, disse que havia se apaixonado. Aninha perguntou quem era ela. Ele disse que era a estagiária.

Com as palavras ainda soltas, Aninha me dava detalhes da estagiária: cabelo alisado, escova progressiva, decotes horrorosos, uma tal faculdade de caçar marido, abusadinha, se insinua pra qualquer um, usa a desculpa do pai alcólatra para se fazer de coitadinha. E eu ainda sem saber o principal: estavam juntos? Estavam tendo um caso?

Aos poucos fui entendendo que o almoço tinha ficado pela metade. Tão logo o marido confessou sua paixão, levantou e saiu. O bife quase intacto no prato. Nem mesmo a Aninha sabia se ele apenas se apaixonara, se se encontravam cotidianamente, se estavam juntos agora, nesse exato momento. Nada.

Aninha não teve tempo de perguntar se ele voltaria para o jantar, se voltaria para o aniversário de seus pais no final de semana, se voltaria, enfim. Com medo da resposta para a pergunta que ficou calada, Aninha juntou suas coisas e se mudou para a casa da mãe, não teria assim que enfrentar o vazio do apartamento no final do dia. Tampouco teria que encarar o marido chegando no entardecer, aquele cretino, apaixonado, cara de bobo, voltando para casa, para dormir comigo? Nem morta!

Como ainda não tinha planos, Aninha ficaria na casa da mãe por uns dias, iria até o apartamento no meio da tarde para buscar o resto das roupas, não queria encontrar o marido. E depois? Depois veria o que fazer.

Quando deixei a casa de Aninha eu tinha o peito repleto de raiva. Como o marido da Aninha foi capaz de uma cachorrada dessa? Como ele pode dizer para ela, assim, impunemente, entre um alface e um pedaço de bife, que se apaixonara pela estagiária? O que essa ordinária tem de tão especial, afinal? O que nela fez com que ele saísse daquele mundinho confortável de casamento, Aninha, trabalho e casa bem arrumada?

Enquanto dirigia para a casa, só trazia na mente a imagem da tal estagiária: cabelo alisado, decotes insinuantes, pai alcólatra, chorando as dores do mundo no cólo do marido da Aninha. Faculdade mediana, belas pernas, talvez. Mas no que essa tal estagiária seria melhor do que eu? Por que por mim ele não foi capaz de abandonar a Aninha? Por que por ela e não por mim? Ah, se eu encontro aquele ordinário do marido da Aninha, ah eu mato! Mato os dois, ele e a estagiária dele. Mato.

 

Conto publicado no site Mundo Mundano.

Curvas perigosas

Para Júnior Marques

O risco era evidente, mas era isso mesmo o que nos atraía. Na fila da montanha russa de um parque na beira da praia, olhei pro meu amigo, perguntando se ele tinha certeza que queria ir. Sincero, ele sorriu o mesmo sorriso de quando tínhamos 10 anos. Certeza a gente nunca tem.

Entramos no vagão, apertamos um cinto frouxo e velho, ele pegou na minha mão e sorriu de novo. Eu ainda duvidava se o risco valia a pena. Ele não, ele se jogava, e me levava junto. A subida era devagar, o trem ia sendo puxado por um trilho, estalava a cada segundo. Assim que chegou no topo, o motor não era preciso mais: o vagão sai às pressas por curvas e curvas caindo e subindo, revirando meu estômago, me jogando para longe em cada volta.

Nada me garantia que aquele vagão não ia mesmo sair dos trilhos, ser atirado para fora do caminho na primeira curva. Um parafuso solto, uma trava não travada, um óleo esquecido e envelhecido. O que valia, no entanto, era o risco. O que valia era o sorriso do meu amigo, seus olhos sedentos de aventura, de perigo, o que valia era ele gritando para mim que se morrêssemos, morreríamos juntos, e felizes.

Quando o brinquedo parou, eu prometi nunca mais entrar num parque de diversão. Eu não queria correr riscos. Meu amigo, no entanto, não compartilhava do mesmo desejo, comprou mais fichas e foi em todos os brinquedos daquele parque chinfrim.

Findada as férias, eu voltei para as aulas da faculdade, cumpri os créditos, me formei, comecei a trabalhar, me casei. Meu amigo abandonou a faculdade, começou outra, foi para a Espanha, foi para a Nova Zelândia, voltou sem um centavo no bolso, arrumou emprego, mandou o chefe às favas, fez consórcio de carro, pediu dinheiro emprestado, ganhou dinheiro, perdeu dinheiro, abriu negócio, brigou com sócio.

Às vezes o salto pode ser fatal, e talvez por isso, pela certeza da fatalidade, eu nunca tenha assumido os riscos, e minha vida tenha sido assim, previsível. Contas pagas em dia, curso de inglês e francês feitos ainda na faculdade. Roupas sérias para trabalhar. Empréstimo em último caso. Carro comprado à vista. Plano de saúde. Previdência privada desde os 18 anos.

Frente a uma cotidiano tão correto, com um perfil tão conservador, sempre que vejo uma montanha russa com trilhos enferrujados na entrada de uma cidade qualquer, me lembro do meu amigo, que na pior curva, na mais perigosa, gritava ao meu lado: “Solta as mãos, Dri, se joga!”. Diante das incertezas, ele sorri: certeza a gente nunca tem. Na montanha russa e quem sabe também na vida, ele sempre soltou as mãos, enquanto eu procurava mãos para segurar.

Data de validade

Só mais um minutinho, por favor. A responsável pelo fechamento da biblioteca arquea os cantos externos de suas sombrancelhas grossas e eu entendo que não tenho nem mais um segundo. Deixo uma frase pela metade, um pensamento qualquer interrompido, desligo às pressas o computador, fecho o livro que lia sem nem mesmo marcar a página onde estava. O prazo tinha se esgotado.

Se a mocinha tivesse sido um pouco mais generosa, um pouco mais compreensiva, um pouco mais paciente, talvez eu pudesse ter escrito um pensamento a mais, talvez pudesse ter tido mais alguma ideia, ou ter entendido um cadinho a mais da vida.

Ou não. Minha dificuldade em finalizar as coisas não é um perfeccionismo, desses que me fazem acreditar que uma última revisão fará toda diferença no documento a ser entregue, e é apenas ilusão pensar que é possível criar algo em cinco minutos. Os prazos me atormentam porque eu quero viver tudo até a última gota, e muitas vezes não sei bem qual é a gota derradeira.

E isso me faz querer ficar só mais um pouquinho, conversar só mais um pouquinho, amar só mais um pouquinho. Não porque acredite que o que virá pode ser melhor do que o que já passou, mas porque me apego tanto àquilo que vivi, que quero viver só um pouquinho mais, dividir só um poquinho mais.

E os prazos vencem, as amizades envelhecem, os amores às vezes acabam e eu continuo apaixonada, conversando com um mundo já caduco que não reconhece mais os meus apelos.

Me faltam, na vida, mais mocinhas de sombracelhas grossas arqueadas a me dizer que não, Adriana, não dá mais para ficar nem mais um segundo, e me fazerem, assim, ir embora. Embora para novos lugares, novos projetos, novas alegrias, deixando para trás aqueles pensamentos que ficaram pela metade, ecoando solitários dentro de mim mesma. Quem sabe assim eu fosse mais capaz de cumprir os prazos e tivesse mais coragem para encarar o dia seguinte – o dia exatamente depois do final do projeto – em que o novo se apresenta como uma imensidão de possibilidades.

Procura-se

Procura-se um sócio, ou sócia, se existir tal palavra. Alguém que se disponha a adentrar comigo em aventuras criativas, em longos períodos de observação, em conversas que são como círculos em que a gente circula e circula e se confunde e se aproxima. Procuro um parceiro ou parceira que acredite que vale a pena perder tempo olhando para as cerejeiras.

O que almejo hoje é diferente dos planos de quando eu tinha apenas 15 anos: um parceiro no amor não é suficiente para todos os planos e projetos que pretendo realizar na vida. Para realizar tais sonhos preciso de mais: mais amigos, mais parceiros, mais amores indefinidos.

Há inúmeras vagas para inúmeros sócios: sócio no amor, sócio no trabalho, sócio na poesia, sócio na culinária, sócio nos sonhos humanitários de paz e justiça, sócio nas taças de vinho, sócio nos prazeres da arte, sócio nas corridas de bicicleta, sócio no cultivo de azeitonas, sócio nas reclamações gerais da vida, sócio na religião, sócio no prazer da leitura e da escrita, etc, etc, etc.

Mesmo que algumas destas vagas se encontrem preenchidas, há espaço para mais, sempre há espaço. Há espaço para uma nova parceria, para uma nova empreitada, para uma nova conversa. Há espaço, sempre, para aqueles que se dispoem a observar as cerejeiras.

Peço a todos que divulguem as vagas. São muitas. Os critérios, apesar de rígidos, são poucos. Basta desejar, com desejo singelo, dividir um projeto, almejar algo para além do parco cotidiano que nos rodeia. Basta, apenas, desejar ser sócio na vida. Não precisa enviar fotografia três por quatro. Basta dizer qual é a sua cor preferida.

Os benefícios da função serão construídos conjuntamente, mas há garantias de que trarão alegrias inesperadas, surpresas cotidianas de uma vida compartilhada, de amor e amizade e companheirismo. Procura-se.