Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

A distância de duas xícaras de café

Fazia meses que eu não o encontrava. Era preciso dizer algumas coisas, ajeitar os sentimentos, falar de nós. Nós? Eu nem sabia mais se era possível falar em nós. Eu sentia saudades, eu morria de saudades, meu corpo doía a cada dia a sua ausência, a sua distância. E agora ele ali, à minha frente, duas xícaras de café e uma distância de milhares de quilômetros.

Era preciso falar de nós. Comecei, então, a falar de mim.

Comecei um curso semana passada, de escrita criativa, a professora é uma escritora, meio famosa, meio estranha. Também fui no cinema e vi um filme que me lembrou você. É. O filme era com aquele ator que você gosta, ele estava deslumbrante, misterioso, a trama era fantástica, deixava a gente submerso do começo ao fim. O filme é baseado num livro, acho que você conhece esse livro, me lembro uma vez você falando que queria ler esse escritor. O nome do escritor? Puxa, era um alemão, acho que era alemão. Você não se lembra? Não tem problema, eu vou procurar na internet e te mando por e-mail. Falando nisso, você viu o último e-mail que te mandei? Não viu? Será que foi pro spam? Estranho… bom, não era nada, era pra te falar sobre uma peça que estreiou dia desses, pensei que a gente podia tentar ir juntos.

Ele afastou as xícaras e pegou minha mão. Os milhares de quilômetros diminuiram para centenas. Nesse instante eu parei de desfiar a ladainha vazia sobre minha vida vazia. Ele procurou os meus olhos e eu tive a certeza que ele falaria mais uma vez que era por isso, que era exatamente por isso que não dava certo, que a gente não dava certo. Mas não disse. Dessa vez ele não disse. Em silêncio ele aproximou o dorso da minha mão de seus lábios, beijando-o com toda a delicadeza e afeto que lhe eram tão comuns. Afastou novamente minha mão, olhou-a e disse que minha mão era uma das coisas lindas de todas as coisas lindas que eu trazia na vida.

Enquanto ele devolvia minha mão à mesa se construía em mim a certeza dolorosa que era por isso que eu amava aquele homem, por ele saber o momento exato de segurar a minha mão e me fazer calar diante do falatório alucinante que nos afasta de qualquer pessoa que esteja sentada à nossa frente.

Eu seguia seus movimentos vagarosos, suas mãos agora na xícara de café, a xícara entre seus lábios, suas mãos pousando a xícara de volta à mesa, como há pouco fizera com minhas mãos, o guardanapo sobre seus lábios, os lábios que há pouco tocaram minha pele. E então, ele disse, o que você mais gostou nesse filme?

Foi quando finalmente entramos nessa esfera em que o nós existe, em que não havia mais nenhuma distância nos separando, em que as xícaras nos eram intimidade e segurança. Esse lugar em que eu me permitia também tocar a sua mão, olhar seus olhos, dizer que tenho saudades etc.

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3 comentários»

  tia lau wrote @

Dri-dri, desta vez você pegou pesado…Quase entornei a minha xícara de café…

  Bel wrote @

E eu, tia Lau, quase queimei meu bico… A Dri êh fera!

  pequenaflordelaranjeira wrote @

Tô achando que essa história de Jovino é furada, puxei mesmo é pras minhas tias matraquentas!


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