Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Uma economia dos segredos

Apenas mais três passos e o homem vê a sua frente uma multidão que o ovaciona. Ele espera um momento para que o barulho diminua e ele possa, então, dizer umas poucas palavras de alegria, agradecimento, encorajamento, generosidade. Palavras que todos precisam. O homem vê milhares de pessoas, lentes de transmissão ao vivo, sabe bem que cada palavra correrá o mundo naquele mesmo segundo. Desce, então, os três degraus que o levaram à fama e se lembra de seus segredos.

No mesmo dia, numa sala de um Tribunal de Júri qualquer, o réu nega todas as acusações que lhe foram feitas. As provas indicam que ele estava presente no local do crime. Ele nega. Onde estava, então? É o que o Juíz lhe pergunta. O réu pensa no namorado, o maior amor de sua vida e sabe que não pode dizer ao Magistrado que estava com um homem que amava. Se o fizesse, esse mesmo homem perderia o posto de Senador, seria expulso de casa e humilhado pela família, os nomes de ambos seriam estampados nos jornais e, para além de uma vida sexual e amorosa conturbada, o Senador também seria acusado de ser bichinha. O réu aguentaria tudo, menos ter que ouvir que seu amor era bichinha.

No mesmo momento, em outro lugar qualquer do mundo que nos acolhe, um deputado sai escoltado de uma reunião no Congresso Federal, seus muitos segredos foram devastados e não há mais aceitação para sua atuação política. Mais do que saber que precisa fazer malabarismos para permanecer no cargo que almejou por tanto tempo, ele descobre que há algo muito mais importante para se preocupar: o lugar onde guarda os seus segredos.

Se o novo Papa realmente teve parte na ditadura argentina, ele bem o sabe. Assim como bem sabe de seus preconceitos aquele que se assenta na cadeira de maior representante dos direitos humanos no congresso brasileiro. O que nós não sabemos é o que se passa na cabeça de um réu que nega a acusação que lhe é feita, de uma criança que afirma que não roubou um pacote de balas, de um adolescente que não admite seu envolvimento com drogas.

Se a nossa vida é uma eterna economia dos segredos, por que o escândalo alheio nos tira dos prumos, nos faz levantar a voz, transformando-nos nos maiores guardiões da verdade e da moral? Por que, geralmente, condenamos as pessoas que mentem e não as instituições que preparam o caminho e acolhem todos os nossos sigilos? Se a trava no olho do outro é maior que aquela que nos cega, ainda assim nos achamos no direito de levantar a voz para o nosso semelhante.

E quão semelhante ele nos é. Eu, carregada de segredos, faço esforços brutais para que nada do que escondo me core as faces. Digo sim tantas vezes quando meu coração está repleto de não – não sei seguir a máxima de fazer do sim, sim, e do não, não. Escondo escombros, velharias, pinto minha cara com boa maquiagem. Sorrio para disfarçar a tristeza. Choro de sem vergonhice. Minto. Sou tantas vezes desleal aos meus próprios princípios. Ando ancorada na contradição. E ainda assim, acredito que posso ser boa pessoa. Algumas pessoas gostam de mim, e, se elas mentem, eu acredito.

Talvez não seja a mentira o nosso principal inimigo, muitas vezes ela nos é abrigo. O problema talvez seja tudo aquilo que esperamos dos outros, e mais ainda daquele outro poderoso que de alguma forma nos representa. Ele não nos é semelhante, não queremos que o seja, pois só assim ele poderia nos salvar da nossa miséria cotidiana.

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