Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Roberto Bolaño: Estrela Distante

Bolano estrela distante

Roberto Bolaño, Estrela distante. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, 143 páginas.

 

Já fazia um tempo que eu estava interessada em ler algo do Bolaño, só tinha ouvido coisas boas dele e sabia que, de certo modo, ele trabalhava em seus livros um tema que me interessa, que é a violência. Na última feira do livro na USP comprei um livro chamado 2666, mas, meu pai surrupiou meu exemplar antes que eu pudesse lê-lo. Tudo bem, as mais de oitocentas páginas do livro me assustaram, e pensei então a começar a ler o Bolaño por outro livro, mais curto, enquanto espero meu pai ler o exemplar de 2666.

Que o Bolaño era bom, eu já imaginava, bons críticos já diziam isso. Mas, como diria minha vó, ele é danado. Em primeiro lugar, porque ele brinca com a narrativa como Garrincha brincava com a bola, acho que podemos colocar as coisas assim. Ele diz o que não é, depois não diz o que é, depois diz que acha que pode ser, mas não tem certeza, depois diz que sim, agora ele tem certeza… O narrador conta uma longa história, dá detalhes, exemplifica, e no fim, diz: “mas talvez nada disso tenha acontecido”. Que raios! E aí, ele continua: “Pode ter acontecido ao contrário, dessa outra maneira”. E por aí vai, nos levando a crer e a duvidar o tempo todo daquilo que está sendo dito. Numa certa altura, ele diz que essa história sim, essa aconteceu dessa mesma maneira exatamente como está contando. Por quê? Oras, por quê, porque ele leu num livro e o livro dizia que foi exatamente assim!

E assim Bolaño vai bricando com o estatudo da narrativa, fazendo o leitor acreditar que aquilo é verdade, depois colocando tudo aquilo em xeque, convidando o leitor a imaginar, do jeito que puder, o que poderia ter acontecido. Danado ele, eu disse.

Bem, e ainda mais danado é que o livro parece um filme de suspense. Pela narrativa você sabe que algo muito sério está para acontecer. Mas ele enrola, te envolve primeiro, cria a cena, faz um intervalo, e você – o leitor – você lá, esperando a cena principal, prevendo que virá sangue, morte, assassinato, alguma coisa que ainda não dá para saber o que é. E aí você lê uma página, precisa parar, ir no banheiro, atender ao telefone, qualquer coisa, e não consegue largar o livro.

E aí, quando a cena vem, o choque é maior do que esperado. Ele te prepara mas, meu amigo, você não está preparado. O estômago revira, o coração acelera. Você fecha o livro e fica com medo de estar sozinho em casa. Não, não tem fantasma, não tem assombração. Tem a violência do homem na sua face mais cínica, mais camuflada, tratada como um meio para o seu fim: a violência como obra de arte.

E é disso que o livro trata, afinal: da arte, da literatura e da forma como tudo isso também pode ter o seu lado sombrio, de como um sistema político violento permite que homens violentos alcancem notoriedade e passem pelo público de forma totalmente impune. Os limites entre arte e violência são peças chave da trama do livro, mas sempre com o pano de funda da ditadura militar chilena, da violência do Estado e da tortura como algo cotidiano e banal em regimes políticos como esse.

Estrela Distante nos coloca face a face com os problemas mais sérios do homem, da humanidade, falando apenas e simplesmente de literatura. Danado, o Bolaño.

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