Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Receita de felicidade

Da noite para o dia ele perdeu todo o seu dinheiro. Parece que houve um incêndio que tomou as plantações de um lado da fazenda, no outro, uma peste atacou a criação de galinhas, os peixes apareceram mortos e os funcionários todos fugiram por medo da represália. Devia de ser mau olhado. Lá se foi trator, estaleiro, caminhonetes, gado, os chalés da fazenda, tudo. Tudo. Só podia ser mau olhado.

João, sereno, se entristeceu, pensou no trinta anos de trabalho para construir o patrimônio, pensou depois que ainda era jovem e poderia, com esforço, resconstruir, não tudo, mas alguma coisa. Já na cama, se agitava preocupado, mas caiu no sono na esperança de tudo se acertar. Amanhã ele veria o que fazer.

A manhã, no entanto, acordou cinza. O telefone da fazenda toca e ele descobre que o filho, em intercâmbio lá do outro lado do mundo, sofreu um acidente e está em coma. Não é nem possível falar com ele. A mulher se desespera. Eles procuram às pressas uma passagem aérea. Quando voltam a ligar no hospital, uma enfermeira, em língua estrangeira, diz que não adianta mais. Os procedimentos já estão sendo tomados para o envio do corpo de volta à terra natal.

João pensou no filho, ele sempre foi melhor que eu, sempre viveu melhor que eu. De tudo o que João trabalhou, foi o filho quem melhor aproveitou. Viveu, viajou, conheceu gente e o mundo. Era um rapaz alegre, corajoso, confiante na vida. João sentia que, de tudo, era o filho o seu maior tesouro, e que este também tinha se ido.

Sem dinheiro e sem o filho, João só tinha a esposa e a vontade de continuar vivendo. E viveu. Triste, mas viveu. Até que descobriu um câncer de próstata já avançado. Sem recursos, foi internado no SUS e lá passou a conviver com 3 outros senhores que também estavam em tratamento de câncer.

De todos, a história de João era a mais triste. Seus companheiros, também sofrendo, buscavam animá-lo. Um deles pensou que aquilo poderia ser uma prova divina, um teste de fé. João já não queria mais ter fé, acreditar num Deus que lhe roubou os bens, a família e agora a saúde. Para ele, não fazia mais sentido lutar por uma vida tão ausente de qualquer alegria. Outro falava de bênçãos futuras, dizia que a vida talvez pudesse ainda melhorar, e João lembrava dos lugares longíquos que o filho conheceu, e ele sempre sem poder estar perto, sem poder apertar a sua mão. O terceiro, ao ouvir as histórias do filho de João, disse que ele era um homem abençoado, que ele tinha algo que ninguém lhe roubaria jamais, que era essa saudade que lhe enchia o peito, trazia lágrimas aos olhos, o homem dizia que era ela, era essa saudade o que lhe traria a saúde, a riqueza e a alegria que um dia lhe roubaram.

O primeiro disse que aquilo tudo era uma bobagem, que saudade não curava ninguém. O segundo pensou, ficou quieto por um tempo, lembrou dos netos que não via há anos, e acenou com a cabeça. O terceiro já estava com o olhar lá fora, longe, sorrindo. João fechou os olhos, amaldiçou uma divindade qualquer e fez uma promessa de que nunca ninguém jamais lhe roubaria sua saudade. Em quatro meses todos morreram, o primeiro infeliz, o segundo com alguma esperança, o terceiro com alegria. João morreu carregado de saudades de tudo o que teve e tudo o que viveu.

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3 comentários»

  leidiane wrote @

E como ficou a mulher do Joao? Ja que ela perdeu tudo, o filho e o marido,,,

  pequenaflordelaranjeira wrote @

Taí! Em breve, teremos a versão da mulher do João!

  Leidiane wrote @

Legal, quero ver a reviravolta dela…


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