Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Poemas num café

O céu chorava suas mágoas raivosamente quando Marcela entrou no café. Eu já a esperava, numa mesa mais ao fundo. Não sabia ao certo o que Marcela queria, mas senti a conversa não seria alegre, como é normalmente. No dia anterior ela me telefonara, disse rapidamente que precisava conversar, eu perguntei o que era, ela me convidou para um café, lá eu te conto. Desligou.

Apesar da chuva, seus cabelos estavam intactos, arrumados num coque alto, com um pequeno adereço de arremate. Vinha numa capa de chuva, botas e sombrinha. Trazia sua pequena bolsa, como de costume, e um livro na mão. Me viu ao fundo, deixou a sombrinha e a capa do chapeleiro, passou rapidamente uma das mãos no cabelo, verificando a exatidão do penteado, olhou para mim e sorriu, vindo na minha direção.

Trouxe esse livro pra você, foi o que ela me disse ao me beijar as bochechas. Me mostrou a capa, delicada como era ela mesma, dizia que trazia poemas que eu iria gostar. Abriu o livro, leu um, leu outro. Eu olhava para Marcela e pressentia que aqueles poemas eram pura metáfora, era o jeito de ela não dizer o que tinha para dizer. Eu esperava. Sorria a cada poema. No próximo ela vai parar, certamente ela vai parar. Eu não queria interromper Marcela. O que ela tinha para me dizer era algo grave e merecia aquela introdução poética.

No meio do quarto poema, Marcela parou no meio. Foi a primeira vez que olhou diramente para mim, olhou nos meus olhos. Eu ainda esperava. Ela baixou os olhos, olhou o livro, passou seus dedos delicados por cima daquele quarto poema. Eu esperava.

E como vão as aulas do doutorado? Ela me perguntou. Vão bem. E os livros, está gostando de lê-los? Não são muito pesados? Não, não são. Eu gosto deles. Gosto mesmo. E a sua orientadora, já conseguiu conversar com ela? Agendamos uma reunião para semana que vem, espero que dê certo. Vai dar, você vai ver, vai dar.

Marcela olhou pela janela para fora do café. Ainda chovia aquela chuva magoada. Achei que ela ia comentar a chuva mas não disse nada. E o Gustavo, como vai? Eu perguntei. Ele foi ontem fazer uma nova entrevista de emprego. Tem outra poesia que eu gosto, posso ler? Eu acenei com a cabeça e ela voltou à leitura dos poemas.

Ela não disse nada sobre o fracasso das entrevistas anteriores, nem do medo que sentia de precisar voltar a morar na casa dos pais. Marcela apenas lia poemas e assim dividia comigo toda a insegurança que sentia na vida. Ela pediu um chá de frutas vermelhas, eu pedi um café sem açúcar. Dividimos depois uma torta de limão, que ela disse, sorrindo, não ser tão boa quanto a que eu costumo fazer. Rimos as duas e aos cruzarmos nossos olhares entendi que uma metáfora vale muito mais cumplicidade que mil palavras ditas sem intimidade.

Marcela ajeitou uma mecha de cabelo que lhe caiu sobre a testa, me pediu um grampo emprestado, arrumou o coque, empurrou o livro para perto de mim e me disse que era um presente. Preciso ir, o Gustavo está me esperando. Pegou sua sombrinha e sua capa no chapeleiro, acenou para mim da porta do café e se foi, com toda a leveza que possui para sofrer e ler poemas nos momentos mais tristes de sua vida.

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2 comentários»

  Dilma Nazário wrote @

Querida, que sensibilidade!Continuo por aqui seguindo te Pequena Flor.
beijos
Dil

  pequenaflordelaranjeira wrote @

Querida Dilmosinha…. saudades enormes de você, e uma alegria enorme também de sentir você por perto, tão perto. Beijos grandes


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