Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Sete e trinta

Aquele era um grande dia. Há quanto tempo não lhe chamavam para bancas mais? Não se lembrava. Havia se preparado por dias para falar naquela ocasião. Ansiosamente. Ali era diferente, ele não havia se inscrito para um congresso, como sempre se faz no mundo acadêmico. Ele não havia proposto uma mesa, um debate. Não. Ele havia sido convidado a avaliar o trabalho de um colega, um colega que ele admirava, um colega que havia dito coisas que ele mesmo gostaria de ter dito. Lembraram dele.

Era ele o mais velho da mesa. Seus colegas, mais jovens, falavam ainda com vigor, ainda com certezas, citavam autores, mexiam com as mãos. As mãos. Suas mãos ficavam sempre debaixo da mesa, sobre os joelhos. Ali estava bom, a mesa estilo colonial escondia as pernas e escondia suas mãos apoiada sobre suas pernas. Os colegas gesticulavam. Ele olhava para suas anotações, olhava para o colega sentado à frente, sendo avaliado. O que diria a ele? Suas anotações, ao final, faziam algum sentido?

As mãos sobre as pernas, o colega dizendo que estaria encerrando, estava chegando sua vez. Ele passaria, então, a falar sobre coisas que falou por toda a vida, os autores que estudou, as descobertas, as conexões entre diversas teorias, aquilo que se leu, aquilo que se viveu, aquilo que se percebeu do que os outros viveram, leram e perceberam. Fazia sentido? Foi preciso trazer as mãos para cima da mesa, virar os papéis onde havia feito anotações. As mãos trêmulas. Ele podia mudar o tom da voz, falar algo quase esbravejante, tirar o foco das mãos, levando a plateia a perceber apenas o timbre, o som. Talvez ninguém percebesse sua dificuldade em virar o papel. Mas ele não sabia esbravejar. A vida toda, o mesmo tom de voz. Feliz, triste, com raiva, com doçura. O mesmo tom. E agora, já velho, as mesmas mãos tremulantes.

Ele parabenizou o colega avaliado, confessou, de maneira sincera como o colega jamais conseguiria acreditar, que ele gostaria de ter descoberto o que o outro descobrira, que ele gostaria de ter escrito o que o outro escrevera. Enquanto confessava o inconfessável, escondia novamente as mãos embaixo da mesa, pensando se tudo aquilo fazia sentido. Aquela sala, aquela mesa, aquela banca, afinal, tinha sido toda sua vida. Aquilo que se estudou, aquilo que se leu, aquilo que se viveu, aquilo que se percebeu.

Terminada a banca, os colegas o convidaram para um confraternização. Ele estava cansado. Ele estava muito cansado. Na confraternização talvez não conseguisse esconder as mãos debaixo da mesa. Talvez não conseguisse falar sobre tudo o que viveu. Talvez só desejasse falar sobre o que não viveu. Fazia sentido? Aquilo fazia sentido?

Ele voltou, então, para o hotel, deixou a mala arrumada e pediu à recepção que o chamassem à cinco da manhã. Seu voo era as sete e trinta, e ele retornaria, então, à sua universidade e aos seus alunos, onde continuaria falando sobre o que se leu, o que se estudou e o que se viveu por tantos e tantos anos de sua vida.

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2 comentários»

  Ju wrote @

Acho que sei bem como esse cara se sente. Toda essa possível falta de sentido, essa tensão de ter que falar algo relevante, essa dúvida sobre como os outros irão avaliar a minha (falta de) postura… Me alivia saber que não sou a única.

  pequenaflordelaranjeira wrote @

E pensa, Ju, que estamos apenas no começo disso tudo…


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