Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Quem tem medo dos tempos verbais?

A etapa mais difícil de aprendizagem de uma nova língua são os tempos verbais. No básico um aprendemos, geralmente, os pronomes, um pouco de vocabulário, os números, aprendemos a nomear as coisas. No básico dois  falamos tudo no presente. Eu sou. Você é. Eles são. Tudo é certeza e, mesmo quando duvidamos da nossa capacidade de nos expressar na nova língua, ainda assim seguimos afirmando tudo o que aparece à frente: a casa é amarela, eu sou feliz, o livro está sobre a mesa, eu amo você.

No nível intermediário as coisas começam a complicar e o mundo fica mais incerto. Quando se passa a olhar para o passado as certezas se vão. Eu fui. Eu era. Eu teria sido. Eu fui e ainda sou. Eu fui mas não sou mais. É quando começamos a pensar naqueles que amamos e o coração bate num soluço. Eu amei. E eles, me amaram? Me amaram e ainda me amam? Ou não amam mais? Olhando para o passado, nos enchemos de dúvidas. Há o passado perfeito, o mais que perfeito, o imperfeito. O que já terminou, o que perdura, aquele pelo qual não há mais nada a se fazer. E ficamos ali, diante da nova língua, angustiados, o peito repleto de dores passadas, gritando para que sejam expressas no presente, aquele presente convicto de nível básico, presente do indicativo. Eu te odeio. Eu te amo. Eu estou feliz. Eu quero ir embora. Eu preciso respirar.  Eu gosto de chocolate. Você gosta de mim. Eu tenho saudades. Eu acredito em Deus.

No presente do indicativo tudo volta à normalidade. Nos lembramos de quem somos, do que gostamos, nomeamos as pessoas que estão por perto. É no nível básico que encontramos essa segurança preciosa do cotidiano que nos ajuda a continuar vivendo o que vivemos até aqui.

Avançar é preciso. Se o nível intermediário nos lança nessa areia movediça do passado, arrancando aos poucos nossas lembranças e dores e culpas esquecidas, é no nível avançado, no entanto, que somos jogados no precipício: é hora de aprender sobre o futuro. Num primeiro momento, o futuro do indicativo, ingênuo como no nível básico, carregado de ares de certeza: eu serei feliz, você será rico, nós venceremos, a casa será construída em dez meses, sua família terá saúde. Nesse momento chegamos até a esquecer as agruras do intermediário, deixando para trás as tristezas do passado.

Mas a língua, essa língua que ansiamos aprender, não dá tregas ao coração. Depois da aparente certeza do futuro do indicativo, abre-se à nossa frente um abismo de novas incertezas, nomeado das mais diversas formas: futuro do pretérito, futuro do presente, futuro composto, futuro do subjuntivo. Frente a tamanha dificuldade, nossa crença em qualquer futuro se esvai. Mesmo esfraquecidos, no entanto, nos esforçamos para continuar o aprendizado daquela língua, temerosos do que esse futuro pode nos reservar.

O maior de todos os problemas se dá quando percebemos que o futuro está irremediavelmente ligado ao passado. Futuro do pretérito. Se eu tivesse prestado mais atenção, se tivesse sido mais presente, se tivesse trabalhado menos, se tivesse sido menos egoista, se tivesse me importado menos com meus sonhos e sonhado junto, ah, se tivesse feito tudo diferente, certamente eu seria mais feliz.  Seria, num futuro que não existe, poderia ter sido, mas não sou, não serei. Não há mais certezas, não estamos no reino do indicativo.

E o coração de novo soluça, se aperta no peito, odiamos aquela língua que nos lembra fracos e impotentes frente ao passado e ao futuro. Desejamos ardemente o simples do nível básico, o presente cheio de certezas, mesmo que seja para ser triste, mesmo que seja para ser sozinho. Mesmo que seja para viver caindo num precipício, mesmo que seja para fazer do abismo o nosso cotidiano. O que importa é a certeza do presente. Talvez por isso gostemos tanto do nível básico e nos acovardemos frente ao avançar do estudo de novas línguas. Os tempos verbais nos assombram, de forma completamente definitiva. De forma indicativa.

3 comentários»

  Leidiane wrote @

Pura verdade, olha eu estou fragil para ler essas coisas….,
Esta semana eu passei por todos esse niveis, o futuro incerto me fez questionar tudo, o medo, a perda, a saudade, a realidade, a dor, o sofrimento, o ver e o sentir, eu passei por estes niveis, perguntei: será que deveria ter feito mais? Pedido mais? Orado mais? Será que nao tenho fé? e acabei ao nivel basico, as são assim e pronto, feliz ou triste, com dor ou sem dor é assim que tem que ser…

  pequenaflordelaranjeira wrote @

Será que um dia a gente chega no nível avançado da vida? Transitando com facilidade por todos os tempos verbais? Lidando com perdas e saudades com menos culpa, e ficando menos ansiosos pelo futuro? Mas será que o doce da vida não está exatamente nessa fragilidade, nesse não saber lidar com tudo? Nessa dor da perda? Já estou eu a fazer mais e mais perguntas…

  Leidiane wrote @

Acredito que sempre vamos esta transitando nos tempo verbais, porque nao temos respostas para tudo, e o doce na vida esta no nossos medos, como voce disse esta no nao saber lidar com tudo….


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