Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Serviço temporariamente indisponível

Antes mesmo de me sentar para escrever, já tenho tudo desenhado na mente: é preciso falar sobre o direito de não haver desejo da escrita, louvar a força do silêncio, dizer que hoje não, não quero escrever. Cínica, puramente cínica, sentada à frente da tela branca, do cursor que pisca. Se não quero escrever, não entendo porque minhas mãos estão tão limpas, tão ausentes de barro ou massa de pão de queijo ou tinta para pintar sapatos ou calda de chocolate. Cínica.

O desejo é, na verdade, uma vontade de burlar o dever, de recusar a escrita como tarefa, como necessidade de dizer algo a alguém, quem quer que seja. A necessidade desgastada de suprir o leitor, de mantê-lo cativo, de oferecer a ele, como quem oferece doces frescos, uma pitada de carinho, e fazê-lo retornar na semana seguinte, ávido por novos sonhos, micromomentos de alegria.

É frente a esse leitor que me sinto paralisada. E se o doce não agradar? E se ele perceber que o texto é velho, apenas uma versão meio melhorada daquilo que se disse há um ano? E se o que eu disser não tiver nada, nadinha de nada de interessante? E se depois do texto lido o leitor simplesmente mudar a página, indiferente, sem nenhuma lembrança do que foi dito, do que foi lido, do que foi construído assim, de jeito tão difícil?

Melhor dizer que não há texto. Ponto. Não há. Não há ideias, não há o que dividir, não há o que dizer. Sinto muito. Volte semana que vem, quem sabe. Quem sabe. Eu espero muito que semana que vem tudo volte a funcionar, por ora, sem previsão.

O problema com o leitor fica assim resolvido. Mas continuo frente à tela, branca, piscando. Não há o que dizer, não há para quem dizer. Nenhuma espera, nenhum desejo. Nem mesmo há cinismo. Há apenas eu mesma, parada, quase extática frente à tela, algo pulsando, pedindo, implorando para que seja escrito.

Alguns roteiros se colocam, possibilidades de alguma intriga, uma mensagem bonita, talvez. Nada. Só há o que pulsa por dentro e não diz o que é, nem como se chama, nada. Penso no meu dia, penso nos últimos dias. Chuvas eternas, leituras eternas, falta de sono, saudades sem contornos. Escrevo, então, para mim mesma. Sem verdades nem mistérios. E encontro, ali, na escrita, a calma dos meus desejos. Não importa o que seja. Importante é o que pulsa. Importante é que se escreva.

Anúncios

No comments yet»

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: