Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Choro de criança

Estava escuro dentro da sala, mas percebi que a moça ao meu lado enxugava discretamente as lágrimas enquanto um menino chorava  na tela do cinema. Seus movimentos eram delicados: o seu choro não era propaganda: talvez apenas emoção retida que escapou aqui e ali, melhor que ninguém percebesse o que acontecia, melhor que ninguém perguntasse.

Ainda me lembro da última vez que chorei de dor: a perna latejava já manchada de sangue depois de um tombo de patins em cimento grosso. Com olhos de menina, eu olhava o machucado, ardente, e lágrimas caíam desobedientes pelo meu rosto.

Depois disso, menina crescida, dor de choro era dor de coração. Certa vez ganhei um travesseiro cheiroso – de presente – mas me tomaram ele de volta. Outra, fui dada como responsável pelo sumiço de alguma coisa, e eu, sem nenhuma culpa, chorava sem respostas também.

Dor de machucado é fácil de explicar. Por que chora, filha? A menina aponta o joelho ralado, abraça a mãe e está tudo entendido. Dor de coração é diferente, enche de vergonha e recato quem a sente. Choro vira cisco no olho, coceira, vergonha de ser pego de surpresa.

Certa vez, um namorado que tive terminou comigo num banco de praça. A sua estratégia era buscar um lugar tranquilo, longe de olhares curiosos. Mas eu, que fui pega de surpresa, precisei tomar um ônibus, aos prantos, enfrentando o cobrador que me inquiria com os olhos o motivo de tanta angústia. Eu corria para casa, em busca de um travesseiro que escondesse a minha dor. Poder esconder a dor deveria de ser direito adquirido de todo aquele que chora, sem importar o motivo.

A moça no cinema chorava baixinho, e ainda suspeito que o filme não tenha lhe trazido lembranças de algum irmão ou parente falecido, como havia acontecido com o menino que chorava dentro da tela. Ela chorava porque o garoto lhe despertava emoções, e são raros os momentos em que podemos chorar livremente, sem motivos, sem explicações. E ela escondia o choro certamente porque como menina crescida aprendeu que só se chora no escuro, por trás dos óculos, sem ninguém por perto.

Eu, companhia silenciosa, me emocionava não pelo choro do menino, mas pela possibilidade e pela singeleza do choro da moça ao meu lado, choro que não pedia explicações.

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