Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Lápis de cor

Era época de Natal e fui até a Livraria Cultura da Avenida Paulista. Sempre tenho um certo calafrio quando vou a essa loja, e não é porque ela é a maior livraria da América Latina, mas porque, talvez exatamente por isso, é um lugar onde eventos estranhos acontecem vez ou outra. Diz-se de um rapaz que entrou certo dia na loja com um taco de beisebol e acertou a cabeça de um desconhecido que estava no caixa. O rapaz desavisado, que comprava livros certamente, veio a óbito. O outro, o do taco de beisebol, me parece que foi internado em algum sanatório.

Já de posse do calafrio de entrar na livraria com um histórico como esse, eu me dirigi diretamente à lojinha da Faber Castell, que fica na entrada. Queria comprar um estojinho de lápis de cor, para dar de presente para alguém. Certamente é simpático ganhar um estojo de lápis de cor, dá para circular no jornal dos classificados seguindo alguma codificação específica: círculo amarelo indica anúncio interessante; vermelho, anúncio desrespeitoso pelo preço (aqui o vermelho significaria indignação); círculo verde poderia indicar que é algo bem plausível de ser comprado ou adquirido ou alugado, seja lá o que for.

O estojinho poderia ainda servir para marcar as páginas de um livro de poesia, desses que a gente vai ler e depois dar de presente para alguém: assim o livro-presente já viria com uma marcaçãozinha bem pequena ao lado do número da página, quase imperceptível, e poderia também ter uma codificação secreta: amarelo indica que gostei da poesia, azul que eu não entendi muito bem, vermelho que o texto desperta sentimentos fortes, verde que existem frases ou idéias que poderiam ser aproveitados nas minhas crônicas, e por aí vai.

Enquanto eu olhava a vitrine e me espantava com o preço das caixinhas – variando de 40 a 500 reais – a atendente da Faber Castel conversava com um rapaz no balcão sobre as qualidades de uma certa caneta. Ela dizia que a caneta não ressecava, que era possível trocar a carga, que a madeira que cobria o tubo da tinta era tratada. E eu ali, rondando os dois, à procura de lápis de cores mais acessíveis. A conversa entre os dois ia longe, e foi então que a mulher disse o preço da caneta: algo como 800 reais. É claro que não contive o meu impulso e olhei para a cara do moço comprador. Afinal, quem é que compra uma caneta de 800 reais na lojinha em frente à livraria?

Acho que o moço percebeu meu espanto: tentei disfarçar, busquei alguma coisa dentro da bolsa e fui-me embora. Não quis saber se ele comprou ou não a tal caneta. Eu não comprei nenhum lápis de cor. Nem mesmo se eu ganhasse o prêmio Nobel eu gostaria de escrever com uma caneta dessas. Nem mesmo se eu assinasse um cheque bilionário eu usaria tal caneta. Uma caneta vai ser sempre solitária, e nunca vai poder colorir meus livros do jeito que eu gosto.

Dei uma espiada para dentro da loja, já melancólica: não era possível dar dois passos sem esbarrar em alguém. Achei melhor não arriscar, não queria correr o risco de eu mesma enlouquecer lá dentro e sair dando bolsadas em alguém e depois ser interditada por conta disso. Dei meia volta, fui-me embora de vez. Ainda sonhando com um estojinho de lápis de cor para colorir livros ou criar uma codificação secreta para cada sentimento e desejo que trago dentro de mim.

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2 comentários»

  Rebeca wrote @

O meu preferido. Na verdade, um dos preferidos.

  pequenaflordelaranjeira wrote @

O que a senhora anda colorindo com aquele lápis master que eu te dei?


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